quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Atividade em risco: caminhoneiro


Assim como a tecnologia dos caminhões, os desafios da profissão não param de crescer, mas será que quem está ao volante vem acompanhando esse avanço no mesmo ritmo? Pesquisas realizadas em diversos países do mundo mostram que nem todo o desenvolvimento dos veículos está sendo capaz de pôr um fim aos aspectos negativos da profissão, como longos períodos longe da família e falta de reconhecimento. Além disso, também confirmam que o Brasil ainda tem um longo caminho quando o assunto é profissionalização e atualização. O fato é que outros países também encontram a mesma dificuldade vivida no Brasil da falta de motoristas.
A Alemanha, por exemplo, não é apenas a sede de muitas montadoras, mas graças à sua grande tradição no setor acaba sendo vista como um exemplo a ser seguido. Mas isso não significa que o país não seja afetado por outros problemas vistos no continente europeu, como por exemplo, o déficit de condutores, horas de trabalho, desequilíbrio entre a vida social e profissional do motorista e as novas tecnologias.
Em 2010, o mercado alemão contava com quase 800 mil motoristas de caminhão profissionais, mas quase 40% deles tinham mais de 50 anos e apenas 13% menos de 35 anos. Pelos números muitos se aposentarão em breve (já que a idade média para se aposentar é aos 60 anos), mas não estão sendo substituídos no mesmo ritmo, e, segundo um estudo feito por Tobias Bernecker, na Universidade de Heilbronn, cerca de 24.500 motoristas serão demandados por ano nos próximos 10 anos, isso se o transporte de carga não crescer, senão a demanda seria ainda maior.
Quando perguntados sobre a escolha da profissão, mais de 60% responderam que foram para a atividade por gostar de dirigir. Segundo Bernecker, é um trabalho interessante, dá independência, dinheiro e oportunidade de viajar, lembrando que o salário varia entre cerca de 1.290 a 2.800 euros/mês – equivalente a R$3.350 a R$ 7.280. Já os principais problemas da profissão apontados pelo estudo foram o estresse, a falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional e baixos salários.
“Eu acredito que salários mais altos são essenciais para a motivação dos motoristas, mas não são o único argumento. O prazer de dirigir e a regulamentação das horas de trabalho são tão importantes quanto o salário”, diz Bernecker. Dentre aqueles que dirigem por longas distâncias, a jornada semanal chega a 60 horas, sendo 41,8 horas ao volante e 15,6 horas carregando e descarregando. Entre os que atuam regionalmente a jornada média é de 52,2 horas por semana e os “locais” trabalham 47,3 horas por semana. Para o especialista, o principal fator que faz com que um motorista fique numa empresa é o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O estudo mostra que 93% dos profissionais que se declararam satisfeitos não pretendem mudar de emprego. Já na Austrália, o transporte rodoviário representa 70% de toda a movimentação de carga feita no país – e o setor é responsável por 2,4% dos empregos, assim como acontece em outras partes do mundo- é formado principalmente por motoristas autônomos. Os carreteiros australianos têm 49 anos de idade, em média, um índice mais alto do que a dos demais trabalhadores do país. Somado à falta de profissionais qualificados e à dificuldade de atrair os jovens, esse número cria um grande déficit de motoristas de caminhão.
Em 2001 havia 154.800 motoristas na Austrália, com a expectativa de que esse número dobrasse até 2015, já que entre 1991 e 2001 o crescimento foi de 23% para motoristas de caminhões e 24% para motorista de caminhões de entrega. Para mudar esse cenário, muitas empresas investem na formação de profissionais. Em 2001, eram cerca de 15.100 estagiários com contrato de formação com um empregador do setor – o que mostra que a iniciativa privada deve investir para obter mão de obra qualificada.
No Canadá, a falta de motoristas profissionais é tão grave que há alguns anos os transportadores “importam” motoristas – especialmente da Europa – para atender à demanda no país. Assim como na Alemanha, há um envelhecimento dos profissionais, cuja idade média é de 44,2 anos, sendo que cerca de 20% dos que estão em atividade já passaram dos 54 anos. Na outra ponta, formada por motoristas com menos de 30 anos, estão apenas 12% dos profissionais.
O país também sofre com a falta de qualificação. “Temos profissionais qualificados no Canadá, mas também temos motoristas que têm apenas a Carteira para dirigir e que não atendem aos requisitos do setor”, explica Linda Gauthier, especialista do segmento e ex-diretora executiva do CTHRC (Conselho de Recursos Humanos do Transporte Rodoviário Canadense, na sigla em inglês).
No país existem mais de 30 mil empresas de transporte rodoviário de carga, sendo mais de 90% delas de pequeno e médio porte. As de grande porte, porém, são responsáveis por mais de 56% dos empregos – que chegam a 307.700 pessoas no total – sendo 174 mil carreteiros. A expectativa é que a demanda por esses profissionais continue crescendo nos próximos anos e que entre 2011 e 2021 deva aumentar 26,6%.
Os jovens canadenses também estão cada vez menos atraídos pela profissão. Linda Gauthier explica que os jovens estão mais interessados em TI, em ganhar dinheiro muito rápido. “Alguns nem sabem o que é trabalhar duro para ganhar dinheiro, é uma coisa cultural. Temos também o problema de que há um grande incentivo para promover profissões como medicina, direito, etc. ao invés de profissões que exigem conhecimento técnico, como mecânico, caminhoneiro, operador de equipamentos pesados”, acrescenta. Ainda de acordo com a especialista, o principal problema no Canadá é que a profissão de motorista não é considerada como um ofício qualificado. Levantamento junto a empresas de transporte rodoviário mostra que somente 17% delas não têm dificuldades em encontrar um caminhoneiro qualificado para contratar.
Nos Estados Unidos, o cenário do setor de transporte rodoviário é preocupante. No final de 2012, o déficit era de 20 a 25 mil profissionais, segundo estimativas da ATA (Associação Americana de Transportadoras) e a previsão é de que a demanda chegue a 239 mil motoristas em 2022. Hoje, cerca de 90% das transportadoras já têm dificuldade em encontrar profissionais qualificados na hora de contratar, e a situação pode piorar com uma regulamentação (prevista para começar a vigorar este ano) que limita as horas de serviço e ameaça reduzir a produtividade das transportadoras em até 3%.
De acordo com Departamento de Trabalho dos EUA, em 2010 havia no país mais de 1,6 milhão de motoristas decaminhão, com média salarial de US$ 37.770 por ano, o que equivale a R$ 6.295 por mês. Trata-se de um valor mais alto do que a média do que recebe alguém que completou o Ensino Médio e não foi à universidade, caso da maioria dos norte-americanos. Por conta disso, o salário continua sendo um dos principais atrativos para a profissão entre jovens com esse perfil.
Diferente dos mercados estrangeiros já mencionados nesta reportagem, o Brasil é um país onde os autônomos são a maioria, 60%, de acordo com Relatório da CNT. A média de idade também é menor: 42,2 anos, o que nos coloca em uma posição mais confortável, mas expectativas do próprio mercado apontam que há cerca de 40 mil vagas abertas para motoristas de caminhão e ônibus em todo o País, que não conseguem ser preenchidas.
Entre os desafios para que isso aconteça estão a falta de qualificação, de reconhecimento, e também de interesse dos jovens (que se sentem mais atraídos para outras profissões). Segundo o Relatório da CNT (Confederação Nacional dos Transportes), 62,9% dos motoristas de caminhão entrevistados não trocariam de profissão e mais da metade gosta do que faz e se sente realizada. Porém, 56,1% não a recomendariam para outras pessoas. As razões para isso são, segundo os entrevistados, o perigo (41,5%) (item que não aparece com tanto destaque nos outros países) o desgaste (14,7%) e o comprometimento do convívio familiar (13,9%).
Por outro lado, os pontos positivos são a gratificação financeira (32,5%), a oportunidade de conhecer novas cidades e países (22,4%) e o desafio/ aventura da profissão (14,8%). A renda média líquida mensal do caminhoneiro empregado de frota é de R$ 3.166,20, enquanto a dos autônomos é de R$ 4.902,40, mas os valores variam principalmente de acordo com o tipo de carga. Já um outro estudo, realizado pela organização Childhood, mostra que 82% dos motoristas de caminhão acreditam que as outras pessoas enxergam a profissão de maneira negativa, o que ressalta a necessidade de esclarecimento sobre a importância da profissão para toda a sociedade.

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