
Cerca de seis meses após manifestações, população
não vê mudanças no transporte público da Capital
Lotação, demora e violência. A reclamação dos usuários do transporte público,
em Fortaleza, está praticamente na ponta da língua. Cerca de seis meses após a
realização das manifestações, que povoaram as ruas com a exigência, entre
outras questões, de um transporte público de qualidade, a situação parece não
ter modificado muito. Nos terminais de ônibus, as longas filas que se formam
tiram o sossego dos passageiros, que temem os assaltos constantes aos veículos.
Além disso, a demanda de pessoas a serem transportadas, maior do que a oferta
de assentos nos carros, obriga os usuários a se espremerem em viagens nada
confortáveis. O resultado é a insatisfação da maioria.
A reportagem percorreu seis terminais em Fortaleza: Lagoa, Parangaba, Siqueira,
Messejana, Antônio Bezerra e Papicu. A reclamação é a mesma: a longa espera nas
filas aguardando a chegada dos ônibus, a lotação dos veículos e os assaltos.
A estudante Rebekka Falcão, 20, teve um ano de 2013 não muito agradável em suas
viagens de ônibus. A jovem conta que foi assaltada cinco vezes na mesma linha,
a 038 (Parangaba-Papicu), quando voltava para casa à noite. Ela diz que precisa
do transporte para se deslocar todos os dias e não está nada satisfeita com o
serviço. "O transporte público em Fortaleza é muito ruim, não tem
segurança. Não consigo ver nem um ponto positivo no serviço", avaliou.
O medo dos assaltos também interfere nas viagens da aposentada Aulzenir
Negreiros, 68. Para a mulher, a lotação dos veículos contribui com a onda de
assaltos. "Com a lotação, se você está com bolsa, eles (criminosos) tentam
te roubar. Precisa de mais ônibus e de mais fiscalização pois a gente está
desprotegido", contou. A insegurança também é fato para o pastor
evangélico José Ribamar Ferreira, 76, que já foi assaltado três vezes durante
as viagens de ônibus que faz, diariamente, pela cidade. "Costumo andar de
ônibus no fim da tarde e à noite. Nesses horários é que isso acontece",
detalha.
Organização
Além do medo de assaltos, o longo tempo de espera por um ônibus, seja no
terminal ou na parada, é queixa recorrente dentre os usuários do transporte
coletivo.
A auxiliar de manipulação Antônia Elita do Nascimento, 44, cansou de ser
prejudicada pela demora dos ônibus da linha 041 (Parangaba/Oliveira Paiva/
Papicu) e fez uma reclamação formal junto ao Sindicato das Empresas de
Transporte de Passageiros do Ceará (Sindiônibus). Entretanto, afirma ainda não
ter visto melhora.
"Eles me explicaram que o atraso acontece por conta dos desvios no meio do
caminho, já que a cidade toda está em obras, mas antes de começarem as
reformas, os ônibus já atrasavam muito", argumenta, lamentando o longo
tempo que leva para se deslocar do bairro Vicente Pinzón, onde mora, até onde
trabalha, no bairro Castelão.
O engenheiro civil Leandro Sales, 25, utiliza o ônibus como meio de transporte
todos os dias. Ele afirma que é necessário repensar a maneira de lidar com o
serviço na Capital. "São poucos ônibus para muita gente. É preciso
aumentar a frota e mudar a logística nos terminais", opinou.
Para os usuários em idade avançada, como a costureira Ana Maria Moreira, 65, o
problema da demora e da lotação toma proporções ainda maiores. "Não existe
respeito com quem é idoso: os motoristas não têm paciência quando subimos
devagar, ficamos muitas horas esperando e quase sempre vou em pé, porque
ninguém me dá um lugar", enumera, revelando que as falhas no transporte
público envolvem também o comportamento dos próprios usuários.
A aposentada Valdelice Ribeiro de Castro, 73, compartilha das reclamações.
"Os ônibus estão sempre cheios e os motoristas nunca esperam tempo
suficiente para subir", completa.
Soluções
Nos órgãos responsáveis pela gestão do transporte público e áreas relacionadas,
as melhorias estão em estudo.
Sobre a insegurança, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS)
informou, por meio de nota, que está "em conversa com o Sindiônibus e com
o Sindicato de Veículos em Transporte Público Alternativo de Passageiros no
Estado do Ceará (Sindivans) para desenvolver uma ação direcionada que venha a
coibir os assaltos" que envolvam os equipamentos de transporte público.
De acordo com a assessoria de comunicação da Empresa de Transporte Urbano de
Fortaleza (Etufor), a Prefeitura tem trabalhado, desde o ano passado, em
parceria com a Polícia Militar, fazendo abordagens nos coletivos, além da
presença da Guarda Municipal nos terminais.
A implantação dos corredores exclusivos para ônibus, com os sistemas BRTs e
BRSs, de acordo com a Etufor, deve reduzir o tempo de espera pelos coletivos e
dar mais agilidade ao transporte. Obras como o BRT Alberto Craveiro e BRT
Antônio Bezerra/ Papicu integram o pacote da Prefeitura.
A Etufor informou, ainda, que após a inclusão das vans no sistema de integração
com o Bilhete Único, que começa amanhã (15), a Prefeitura de Fortaleza vai
aprimorar os estudos para readequar as linhas do transporte público, garantindo
mais eficiência ao serviço.
Ampliação
Além da obra de ampliação do Terminal do Antônio Bezerra, em fase de conclusão,
outras intervenções são anunciadas pela Prefeitura, como a ampliação e reforma
do Terminal de Messejana, incluindo a construção de um bicicletário, e a
melhoria viária da Avenida Aguanambi, principal acesso ao corredor
Messejana/Centro. O início das obras deve ser no segundo semestre deste ano.
Jéssica Colaço/Levi de Freitas/Renato Bezerra
Repórteres
Demora e cansaço na volta para casa
À noite, quando a maioria dos usuários do transporte coletivo
regressa para casa, a peleja para se pegar um ônibus continua, porém, com um
agravante: o cansaço após um dia inteiro de trabalho. Nos principais terminais
de integração da cidade, a mesma cena. Filas e mais filas de pessoas em busca
de sua condução para, finalmente, ter o descanso merecido. O que se percebe, no
tanto, é que esse retorno quase sempre não ocorre da forma como o passageiro
deseja.
No Terminal do Papicu, por volta das 18h, ocorre o pico do movimento. O vai e
vem de pessoas é frenético, muitas vezes, de forma apressada ou correndo para
pegar o veículo que já aguarda no local. Perder o ônibus nesse horário é, para
muitos, motivo de muita chateação. "No mínimo, são mais 30 minutos de
espera", ressalta a diarista Francisca dos Santos. Para ela, a solução
para o problema seria disponibilizar mais veículos nos horários de pico.
"Isso diminuiria filas e a lotação nos ônibus", diz. Além disso, ela
reclama da demora de algumas linhas. "Uma vez, esperei 45 minutos por um
ônibus para me trazer da Cidade dos Funcionários para cá", comenta.
As longas filas também são alvos de críticas para a maioria dos passageiros. O
emaranhado de gente muitas vezes se confunde entre um ponto e outro e, de tão
grandes, às vezes chegam a ocupar toda a largura da plataforma de embarque,
obrigando alguns usuários a descer na área de tráfego dos carros para poder
passar de um ponto ao outro.
"Quanto mais cedo da noite se chegar aqui, pior é a situação. Às vezes é
melhor você esperar um pouco para sair e encontrar o terminal um pouco mais
vago", destacou a auxiliar de enfermagem Sandra Ferreira, 38.
Quando falou com a reportagem, o auxiliar de serviços gerais Cristiano Luz, 37,
estava há dez minutos esperando a linha Messejana-Papicu. O tempo,
aparentemente normal, para ele já é irritante, e muitas vezes se estende por um
período bem maior. "Já esperei 40 minutos", diz.
Lotação
Nas paradas nas ruas, a queixa da auxiliar de enfermagem Flaubenia Matos, 39, é
de motoristas que não param no local, aproveitando o momento em que já existem
outros veículos parados. Já dentro do terminal, a combinação lotação e espera é
o que mais desagrada a trabalhadora.
Segundo ela, a estratégia para ir até sua casa com um pouco mais de conforto é
esperar na longa fila por três ou até mais ônibus. "Eu trabalho o dia
inteiro e saio muito cansada. Tudo o que eu queria era chegar aqui e pegar o
ônibus, sentada, para ir para casa, mas para isso tenho que esperar",
lamenta ela.
Fonte: Diario do Nordeste